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Mantram, ślokam, stotram, bhajanam e kīrtanam da tradição Védica

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ślokam stotram kīrtanam bhajanam mantram

No ocidente, todo o tipo de cântico está associado a Mantra. Porém, “Mantra” é o nome dado aos versos dos Vedas e é usado rigorosamente apenas para os versos dos Vedas. Como são partes dos Vedas, eles tem uma estrutura muito rígida, pois não se busca a musicalidade, mas a transmissão de uma informação, de um ensinamento.

Então, vamos entender melhor todas essas estruturas.

Um stotram, que são obras poéticas com inúmeros versos , contém ślokam , que são versos soltos, geralmente retirados de uma obra maior. O Mantra, como parte dos Vedas, tem uma estrutura muito rígida que protege a informação contida nele, garantindo que duas pessoas que não se conheçam cantem o mesmo mantra de forma idêntica. Por isso é imprescindível um professor para dominar essas regras e para que o mantra seja cantado adequadamente.

Mantran:

Literalmente, Mantra é “aquilo que protege a mente”. Uma vez cantados e repetidos, a mente é disciplinada e, como consequência obtém-se uma capacidade de observá-la, compreendendo como ela funciona, o que  a faz reagir e como podemos fazer para lidar melhor com ela. O termo Mantra é usado rigorosamente apenas para os versos dos Vedas, e tem sempre uma conotação devocional, descrevendo e enaltecendo o Todo que é īśvara, “aquele que tudo governa”. Por esse motivo, os mantras também protegem porque são um meio para enfraquecer nosso gostos e aversões; uma vez que não entoamos mantras para satisfazer os desejos da mente, e sim nos relacionamos com īśvara, aqueles gostos e aversões perdem aos poucos sua força , e as reações por não obter os objetos de desejo também diminuem. E desta forma, o ego, com todas as suas projeções, se dobra, nos permitindo questionar sobre a verdade de nós mesmos.

Os Mantras são muito bem feitos, tendo sido recebidos pelos ṛṣis do passado, sendo transmitidos oralmente até nossos dias. Para mantê-los intactos, os mantras devem ser cantados rigorosamente na métrica correta. Os efeitos de tais métricas são vários, que incluem uma absorção da mente no canto, contribuindo para ma mente meditativa. Os mantras quando entoados corretamente, eliminam pāpam, demérito, e os obstáculos são dissolvidos, abrindo caminho para uma mente discriminativa e preparada para o autoconhecimento.

Quando repito um Mantra , este mantra é pensamento. No momento do pensamento, estou presente, porque normalmente nos identificamos com nossa mente. Mas entre as duas repetições só há silêncio. Nenhum pensamento está presente, mas ainda assim estou presente. Assim concluímos que eu não sou pensamento, não sou a mente, uma vez que na ausência de pensamento eu ainda estou presente. Se estou presente no momento do silêncio, não é uma mera ausência de pensamento, mas sou eu mesmo. O silêncio é aquilo que é livre de formas, livre de limitações, livre de qualidades (os gunas). Se estou presente durante o silêncio, e sei que estou presente durante o pensamento, então estou presente o tempo todo. Esse silêncio existe sempre e nele os pensamentos se dissolvem. Todo o Universo é nome e forma e todo nome e forma é pensamento. Portanto todo o Universo surge do silêncio, e se dissolve no silêncio. Esse silêncio é a verdade de īśvara , o Todo, e a verdade de Jīva, o indivíduo. O conhecimentos que os Vedas transmitem é que este īśvara e eu somos o mesmo, livre de limitação, eterno; sat (Existência), cit (Consciência) , ānanda (Plenitude). Esse Absoluto chamado de Brahmann, é Om, e este Om “sou eu”. Dessa forma, Om carrega todo o conhecimento. Meditando sobre ele, o indivíduo é capaz de descobrir a verdade sobre si mesmo.

“Mantra” é o nome dado aos versos dos Vedas e é usado rigorosamente apenas para os versos dos Vedas. Como são partes dos Vedas, eles tem uma estrutura muito rígida, pois não se busca a musicalidade, mas a transmissão de uma informação, de um ensinamento. Eles carregam instruções específicas para o autoconhecimento, rituais, entre outros elementos, que devem ser decifrados com o auxílio de um professor e da tradição de ensinamento.

Nesse tipo de cântico, observamos uma estrutura muito rígida que protege a informação contida nele, garantindo que duas pessoas que não se conheçam cantem o mesmo mantra de forma idêntica. Por isso é imprescindível um professor para dominar essas regras e para que o mantra seja cantado adequadamente.

Na Taittrīya Upaniṣad, encontramos a descrição de seis faculdades da ciência da pronúncia que devem ser observadas para se recitar um mantra védico corretamente:

Varṇaḥ

Conhecimento de pronúncia apropriada das letras. Toda letra tem um ponto de articulação, de onde o som deve ser emitido. As letras podem ser dentais (som vem dos dentes), guturais (garganta), cerebrais (céu da boca, em direção ao cérebro) e assim por diante.

Svaraḥ

Conhecimento dos tons. Os Vedas têm, em geral, três tons, que são marcados por traços abaixo e acima da sílaba, como vemos a seguir:

तन्नो हंसः प्रचोदयात्॥

tanno haṁsaḥ pracodayāt ||

Nesse mantra 0 “co” ( tem uma marcação horizontal abaixo)  é uma anudāta, uma sílaba grave,  o “pra” é uma svarita, sílaba média (sem marcação), e “no” ( tem uma marcação vertical acima)  é uma udātta,  sílaba aguda. Encontramos ainda o nigādha, símbolo com duplo traço em que o tom escorrega do médio para o agudo, como uma udātta atrasada (o tom só se eleva na segunda metade do tempo de pronúncia da sílaba) como na sílaba “yat”.  No Sama Veda existe ainda uma variedade maior de tons como uma escala musical.

Mātrā

Tempo de cada sílaba. Algumas vogais são curtas (hrasva)  e têm uma mātrā; outras são longas (dīrgha) e possuem duas  mātrās. Vamos encontrar ainda vogais alongadas (pluta) que tem mais duas mātrās.

Balam

Esforço empregado na dicção. As consoantes são aspiradas ou não aspiradas, logo existe uma variação sonora correspondente. Na língua portuguesa há apenas consoantes não aspiradas, mas na língua inglesa temos o “t” aspirado na palavra “three”, por exemplo.

Sāma

Uniformidade na pronúncia, continuidade do timbre. Um mantra védico não está sujeito a sotaques nem a ênfase de quem os recita. Existe um som médio que deve ser mantido e que une o mantra em um único esforço contínuo.

Santānaḥ

Conhecimento da justaposição de letras, o acerto de sons que acontece espontaneamente na nossa língua na junção de duas sílabas. Exemplo disso é que, apesar de termos o mesmo símbolo para a letra “n” em palavras como lanche, dente e manga, em cada uma delas o “n” tem um som diferente. Essa alteração de som, natural da nossa língua, é uma regra de pronúncia dos mantras e não é opcional ou flexível.

Segundo a tradição védica, mantras cantados inadequadamente, podem produzir resultados indesejáveis ao praticante. Na dúvida, procure sempre um professor que possa ensinar adequadamente o mantra ou leia o mantra e prosa, que é uma opção alternativa.

ślokam:

A tradução literal do termo seria verso. São versos soltos, geralmente retirados de uma obra maior. São muito cantados antes de atividades para a invocação de uma bênção. Pode ser cantado antes de um estudo, um banho e outras situações, como o livro descreve. Seu canto não possui uma forma rígida e podem ser cantados com melodias diferentes desde que obedeça a pronúncia do sânscrito.

stotram: podemos dizer, em um paralelo com a nossa cultura, que são obras poéticas. São compostos por inúmeros versos e, em geral, tem como tema central uma deidade. Podem contar uma parte de uma história a respeito de uma deidade (purāṇas), descrever uma imagem usada para meditação, entre outros. A maior parte dos ślokams são pedaços de stotrams. Da mesma maneira que o ślokam, o stotram não possui rigidez no canto, apenas uma forma tradicional de ser cantado. É comum encontrarmos três ou quatro versões de um mesmo stotram e nenhuma delas pode ser considerada errada.

kīrtanam: este grupo contém obras que costumam ter versos, que geralmente são cantados em grupo. São cantos mais simples muto usados como maneira de descontração e catarse. Como são mais fáceis, são muito mais acessíveis, qualquer pessoa com um pouco de vontade pode repetir os versos de um kīrtanam. Seu canto é livre e geralmente existe uma pessoa que puxa os versos e outras que repetem.

bhajanam: 

A raiz “bhaj” no sânscrito dá origem ao verbo cantar. Bhajanam significa literalmente música. Como qualquer música, ela tem uma métrica, uma rāga (estrutura melódica) e até um estilo. Em geral é um pouco mais complexo que o kīrtanam, mas a linha que divide os dois, em alguns casos, é muito tênue. É muito comum os cantos serem chamados de bhajanam como uma generalização. Na forma de cantar, o bhajanam é totalmente livre, dando um realce á interpretação do cantor.

Referências da tradição desses ensinamentos: essa tradição de ensinamento  não é propriedade de nenhum professor e de nenhuma linhagem. Cada professor é um elo desta corrente, que vem passando de pessoa para pessoas desde os primórdios dos tempos.

A obra a qual estamos aqui nos referindo, segue os ensinamentos de śrī Svāmī Dayānanda Sarasvati, que no Brasil é representado pelo Centro de Estudos Vidya Mandir sob direção da professora Glória Ariera e pelo Centro de Estudos Vishva Vidya sob direção do  professor Joanas Masetti.

Fonte: Cânticos e Versos – ślokam, stotram, mantram , bhajanam, kīrtanam da tradição védica – Jonas Masetti

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